Desde quando surgiu a ideia de escrever o texto "
I Make My Business With Bananas",
tento entender melhor o que significa ser brasileiro fora do país e o
que o termo latino-americano engendra. Logo quando me mudei para os
Estados Unidos, quando fui aplicar para tirar o CPF daqui, havia o campo
para escolher de qual raça eu acreditava pertencer. Baseado na cor da
minha pele, preenchi que era branco. A atendente, porém, lendo as outras
informações do formulário, disse que eu teria que, necessariamente,
preencher que era latino ao mesmo tempo. Brancos são apenas os que
nasceram nos Estados Unidos.
Esta pequena anedota demonstra que há
uma supremacia geopolítica cultural que, muitas vezes, foge do controle
justamente das pessoas que estão envolvidas. Ao ver os trabalhos da
exposição "
Under The Same Sun: Art from Latin America Today",
que está aberta à visitação no Guggenheim aqui de Nova York, a questão
que mais emergiu para mim é sobre o real significado do que é
latino-americano hoje em dia. A concepção atual quase não tem mais a ver
com a ideia de integração que se viu surgir em discussões sobre
políticas internacionais, principalmente, nas décadas de 1960 e 1970.
Hoje, na arte, ser latino-americano em um país como os Estados Unidos
está mais ligado ao exótico e a exaustação de estereótipos do que,
realmente, há uma unidade cultural.

Pensando nisso, fiz uma
entrevista com o diretor do departamento curatorial e educacional do
Bronx Museum, Sergio Bessa, para entender suas opiniões sobre o termo e
sua relação com a produção artística da região. Sendo brasileiro e
trabalhando em uma instituição cultural há mais de 13 anos, Bessa
acredita que o termo foi cunhado por estadunidenses para englobar o
processo colonizador no restante do continente. A entrevista foi
publicada em um reportagem que fiz para o Opera Mundi, que você pode
conferir
aqui.
Para ele, é impraticável misturar processos colonizadores tão
diferentes - e produções artísticas, consequemente - em um mesmo termo. O
espanhol e o português podem ser semelhantes, mas no fim não são a
mesma língua. Pensando nisso, fica a pergunta: o que é ser
latino-americano hoje em dia? O que o termo diz além de ser uma
delimitação geopolítica? Isso não é só considerando a singularidade do
Brasil, que tem uma colonização portuguesa e holandesa, mas as Guianas, o
Suriname, o Equador, o México, os países do Caribe, e tantas outras
diferenças histórico-culturais. Ainda faz sentido nos considerarmos
latino-americanos, considerando a carga simbólica que o termo carrega
hoje?
A teórica Doreen Massey, em um
artigo,
comenta sobre a "geometria do poder", em que países industrializados
exploram culturalmente outros de forma a preservar um ciclo que não os
envolve. Para explicar o conceito, ela utiliza, inclusive, as favelas no
Rio de Janeiro. Lá, a produção cultural emergente é explorada pelo
mercado global (que não envolve países em desenvolvimento ou
subdesenvolvidos) literalmente copiando o conteúdo e não trazendo
nenhuma retribuição à comunidade que o criou. Em vez disso, a comunidade
explorada tem que se sentir orgulhosa por ser matéria-prima para os
"grandes" do mercado. Assim, o
status quo nesta hierarquia cultural é preservada e com a ilusão de que todos ganham.
Será
que o termo latino-americano não estaria inserido nesta geometria do
poder? Será que enquanto achamos que exaltamos a cultura local e
tentamos criar uma identidade única não estamos nos alienando de nossos
próprios processos?
As discussões sobre a identidade brasileira já
é algo que, por si só, gera diversas discussões. A concepção da
mestiçagem pelas três raças é constante em diversas obras, sendo
inclusive parte de políticas públicas a partir, essencialmente, da
década de 1930 (vale ler o artigo "
Complexo de Zé Carioca: Notas Sobre Uma Identidade Mestiça e Malandra", de Lilia Schwarcz).
Se somos mestiços e antropofágicos, somos, claro, latino-americanos.
Mas não só. E é essa diferença, essa singularidade, que cada vez mais me
faz pensar que este termo deve ser problematizado e, talvez,
ressignificado.
O que é ser latino-americano hoje em dia?
fonte; Brasil Post