Esta pequena anedota demonstra que há uma supremacia geopolítica cultural que, muitas vezes, foge do controle justamente das pessoas que estão envolvidas. Ao ver os trabalhos da exposição "Under The Same Sun: Art from Latin America Today", que está aberta à visitação no Guggenheim aqui de Nova York, a questão que mais emergiu para mim é sobre o real significado do que é latino-americano hoje em dia. A concepção atual quase não tem mais a ver com a ideia de integração que se viu surgir em discussões sobre políticas internacionais, principalmente, nas décadas de 1960 e 1970. Hoje, na arte, ser latino-americano em um país como os Estados Unidos está mais ligado ao exótico e a exaustação de estereótipos do que, realmente, há uma unidade cultural.
A teórica Doreen Massey, em um artigo, comenta sobre a "geometria do poder", em que países industrializados exploram culturalmente outros de forma a preservar um ciclo que não os envolve. Para explicar o conceito, ela utiliza, inclusive, as favelas no Rio de Janeiro. Lá, a produção cultural emergente é explorada pelo mercado global (que não envolve países em desenvolvimento ou subdesenvolvidos) literalmente copiando o conteúdo e não trazendo nenhuma retribuição à comunidade que o criou. Em vez disso, a comunidade explorada tem que se sentir orgulhosa por ser matéria-prima para os "grandes" do mercado. Assim, o status quo nesta hierarquia cultural é preservada e com a ilusão de que todos ganham.
Será que o termo latino-americano não estaria inserido nesta geometria do poder? Será que enquanto achamos que exaltamos a cultura local e tentamos criar uma identidade única não estamos nos alienando de nossos próprios processos?
As discussões sobre a identidade brasileira já é algo que, por si só, gera diversas discussões. A concepção da mestiçagem pelas três raças é constante em diversas obras, sendo inclusive parte de políticas públicas a partir, essencialmente, da década de 1930 (vale ler o artigo "Complexo de Zé Carioca: Notas Sobre Uma Identidade Mestiça e Malandra", de Lilia Schwarcz). Se somos mestiços e antropofágicos, somos, claro, latino-americanos. Mas não só. E é essa diferença, essa singularidade, que cada vez mais me faz pensar que este termo deve ser problematizado e, talvez, ressignificado.
O que é ser latino-americano hoje em dia?
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fonte; Brasil Post
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