
Em entrevista à BBC, Sakkar questiona atenção do Ocidente a episódio 'canibal'
Parecia exagerada demais, algo
típico de propaganda de guerra. Mas a notícia de que um comandante dos
rebeldes sírios teria comido o coração de um soldado inimigo sob
aplausos de seus homens acabou sendo confirmada – ao menos em partes.
Abu Sakkar, o líder do Exército Livre da Síria
que aparece comendo um órgão em um vídeo divulgado na internet, não
tinha tanta certeza sobre os detalhes quando o entrevistei.
"Eu realmente não me lembro", disse
ele, quando perguntei se tratava-se de um coração humano, como foi dito
na época, ou um fígado, ou ainda um pedaço de um pulmão, como me relatou
um médico que assistiu ao vídeo. "Eu não mordi, apenas segurei para
mostrar aos outros", acrescentou.
Nas imagens que rodaram o mundo, Sakkar está acima do corpo de um soldado inimigo, retalhando o cadáver.
"Parece que você está fatiando um coração de Dia
dos Namorados", diz um dos rebeldes. Pouco depois Abu Sakkar pega uma
mão cheia de algum material não identificado e declara: "Nós vamos comer
seus corações e seus fígados, seus soldados de Bashar, o cão" – em
referência ao presidente sírio Bashar al-Assad.
No momento seguinte, ele traz a mão até a boca e
seus lábios se fecham ao redor daquilo que está segurando. Na época em
que o vídeo foi divulgado, em maio, telefonamos para ele e Sakkar nos
confirmou que havia dado uma mordida.
Agora, frente a frente, ele parece mais sóbrio – embora fique com mais raiva quando pergunto por que fez isso.
"Eu não quis fazer isso. Eu tive que", ele me
conta. "Nós temos que aterrorizar o inimigo, humilhá-lo, da mesma forma
que ele faz conosco. Agora, eles não vão ousar estar no mesmo lugar onde
Abu Sakkar estiver", diz.
Aos 27 anos, Sakkar é um beduíno parrudo, com
olhar intimidador. Sírio do distrito de Baba Amr, na cidade de Homs, ele
tem a pele queimada pela exposição ao sol durante as muitas horas
seguidas de combate. Ele me conta a história do seu envolvimento na
revolução, até chegar à sua atual notoriedade.
Manifestações
Antes de se juntar às manifestações na Síria, no
início de 2011, Sakkar trabalhava como operário em Baba Amr. Na época,
ele acompanhou o momento em que uma mulher e uma criança foram mortas
durante um protesto. Seu irmão foi ajudar, e ele também foi assassinado.
Meses depois, em um vídeo de junho de 2011, Abu
Sakkar pode ser visto diante de uma multidão acenando com ramos de
oliveira ao cumprimentar soldados que desertavam do Exército do
presidente Bashar al-Assad.

Abu Sakkar: 'Vocês ainda não viram nada'
Na mesma época, ele acabou pegando em armas
contra o regime, tornando-se um dos primeiros membros do então
recém-criado Exército Livre da Síria (ELS).
Em fevereiro de 2012, ele lutava na Brigada
Farouq quando os rebeldes tentaram evitar, sem sucesso, que os homens de
Assad tomassem Baba Amr.
Ao final dos combates, com a retirada do ELS, Sakkar deu início a sua própria brigada, a Omar al-Farouq.
Ao longo do caminho ele perdeu mais um irmão,
muitos parentes, e muitos de seus homens. Seus pais foram presos e ele
disse que a polícia ligou para ele para que pudesse ouvir o espancamento
dos dois.
"Coloque-se na minha pele", ele diz. "Eles levam
seu pai e sua mãe. Massacram seus irmãos, assassinam seu tio e sua tia.
Tudo isso aconteceu comigo. Eles massacraram meus vizinhos".
"Canibal"
Voltando a falar sobre o homem que aparece no vídeo, Sakkar dá mais detalhes do que se passou no dia.
"Esse homem tinha vídeos no seu celular. Ele
aparecia estuprando uma mãe e suas duas filhas. Ele as despiu enquanto
elas imploravam que ele parasse, em nome de Deus. Finalmente ele as
esfaqueou e assassinou. O que você teria feito?", ele me pergunta.
Ele diz que meses atrás seus homens tinham
ordens de alimentar os inimigos capturados e repassarem a mensagem de
que todos são irmãos. "Mas eles começaram a estuprar nossas mulheres,
matar crianças com facas".
Abu Sakkar mostra cicatrizes de 14 diferentes
ferimentos à bala em seu corpo. "Nós estamos sob ataque, já são dois
anos agora. Há vídeos das shabiha (milícia do governo) que mostram
coisas muito mais terríveis do que o que eu fiz. Vocês não se
preocuparam. Não houve tanto alarde na mídia. Vocês não deram
importância. Se vocês sofressem uma fração do que nós sofremos fariam o
que eu fiz e muito mais".
Argumento internacional
"Se nós não conseguirmos ajuda, uma zona de
exclusão aérea, armas pesadas, nós faremos muito pior (do que ele fez).
Vocês ainda não viram nada", ele ameaça.
Mas ao tornar-se o "rebelde canibal", Sakkar
acabou fornecendo um argumento aos membros da comunidade internacional
que se opõem aos planos de ajudar os revolucionários.
Durante a última reunião do G8, o grupo das
nações mais ricas do mundo, o presidente da Rússia, Vladimir Putin,
citou o ocorrido.
"Essas não são pessoas que simplesmente matam
seus inimigos, elas abrem seus corpos, e comem seus intestinos diante do
público e das câmeras. São essas pessoas que vocês querem ajudar com
armas?", questionou.
É possível que Abu Sakkar tivesse problemas psicológicos desde sempre. Ou talvez a guerra tivesse deixado-o assim.
A guerra transforma as pessoas, e a da Síria não é diferente.